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E agora, José?

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E agora, José?

E agora, José?

“Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas.”

As novelas televisivas são um patrimônio cultural brasileiro. Por mais que você tente negar a importância desse formato de entretenimento, as novelas tendem a mudar o aspecto comportamental da população. Pelo menos, no Brasil.

As novelas já abordaram temas que envolveram a política, proteção do meio ambiente, divórcio, liberação sexual, religião, lesbianismo, virgindade, bullying, violência urbana, agressão familiar, alcoolismo, drogas, esquizofrenia, relacionamentos amorosos com portadores de doenças mentais, beijo gay e trocentos e tantos outros temas polêmicos que você assistindo ou não, acabam sendo discutidos em jornais, revistas, programas de tv e nas rodas de conversas de parentes, amigos e vizinhos - ou mais comumente, nas redes sociais.  
 
Porém, incrivelmente a última polêmica originada no mundo televisivo - e que está promovendo um intenso debate cultural desde o último fim-de-semana -  não surgiu de uma novela, mas nos bastidores de uma.

O ator global José Mayer (67) - um veterano na TV e responsável por interpretar papéis que deixariam vários personagens machistas do cronista Nelson Rodrigues no chinelo - conheceu o inferno pessoal e profissional após ter sido acusado de assédio sexual  por Susllem Tonani (28), uma figurinista da TV Globo - emissora onde ambos trabalham.

Não vou entrar nos méritos neste texto de quem está com a razão. Casos de estupro e assédio são delicados e dificilmente toda a verdade vem a tona - seja pela ocultação dos fatos pela natural vergonha e medo da vítima, seja pela manipulação dos fatos por “vítimas” que desejavam punir parceiros ou desafetos ou ainda, para ocultar seus próprios desvios de conduta

Portanto, a verdadeira verdade só conhece quem vivencia (ou está envolvido em um caso) algum tipo de assédio ou violência sexual.

O fato é que Zé Mayer, motivado pela pressão sofrida pela repercussão do caso e pelo apoio dado à vítima pela classe feminina trabalhadora na emissora, manifestou seu pedido de desculpas através de uma carta aberta, pública - algo raro de se ver, nesses casos - quando é mais fácil “preferir não se manifestar sobre o fato” ou ainda, “não ser encontrado para prestar declarações sobre o ocorrido”.

Vi aí a coragem de ambos: ela, por denunciar um fato que geralmente fica oculto na intimidade de cada vítima por anos a fio - e ele, por assumir seu erro publicamente, pedir desculpas e prometer mudanças em seu comportamento.

Mas uma frase me chamou a atenção na carta do Zé, um ator que possui em seu currículo dezenas de personagens machistas, dominadores e canalhas:

“Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas.”

Na hora lembrei-me de um filme de 1994, “Assédio Sexual” (Disclosure) onde Tom Sanders (Michael Douglas), um executivo, espera ser promovido mas quem acaba ocupando o cargo é Meredith Johnson (Demi Moore), com quem ele teve no passado um envolvimento. Meredith rapidamente tenta forçá-lo a ter relações sexuais e, em virtude da recusa dele - ela ameaça destruí-lo na empresa.


Demi Moore em 1994 mostrou que uma mulher assedia tanto quando um homem.

Ainda que o mote principal do filme seja o assédio feminino (já, já falaremos sobre isso) em uma das cenas Tom desabafa sobre o assédio que está sofrendo de Meredith, para sua assistente pessoal Cindy Chang (Jacqueline Kim) - que por sua vez revela para ele que também se sente mal cada vez que ele dá um “tapinha” em sua bunda com papéis ou pastas de documentos, quando solicita alguma tarefa para ela. Nesse momento Tom se espanta e se dá conta que certas ações que ele realizava em seu relacionamento profissional para ele parecia algo “normal” - e isso fica bem claro no filme - mas essas atitudes constrangiam a mulher com que ele trabalhava, ainda que essa não fosse a sua intenção.


Tom conversando com sua assistente pessoal Cindy...


...e ao final da conversa, uma batida "marota" com uma pasta de documentos em sua bunda.

Assim como o José Mayer, Tom se desculpa e diz que não fará mais isso. Precisou ela expusesse a situação, para que ele então percebesse o erro que estava cometendo, pois no seu universo masculino a atitude não era assediadora e contestável.

No final das contas, percebemos que o assédio de Meredith era mais agressivo que o de Tom em suas “brincadeiras” machistas ( ela ameaçou o seu emprego caso não aceitasse submeter-se à seus desejos sexuais ) - mas assédio é assédio, em menor ou maior grau e a parte assediada sofre pelo constrangimento vivenciado e suas consequências.

Essa frase que o Zé publicou também me remeteu a todo um comportamento masculino que - longe de eximir a classe masculina  e principalmente o Zé de qualquer culpa - literalmente fomos “programados” a executar. Em praticamente todas as culturas e sociedades existentes deste planeta espera-se que o homem tenha uma postura de macho, agressivo e dominante. 
O Homem só começou a “prestar atenção” de verdade na equidade de direitos e deveres entre homens e mulheres há pouco menos de 100 anos - o que é relativamente pouco tempo se compararmos com a trogloditagem pré-histórica ou a lenda do rapto das sabinas - que deu origem a Roma, por exemplo. Eu mesmo fui testemunha desse comportamento dominante no meu pai, nos meus avôs e nos amigos deles. Fui criado  para realizar apenas “tarefas de homem”, vestir “cores de homem” e agir como um homem: coma todas as vagabundas que puder, case com mulher “que presta”, não é nada errado dar cantadas em uma mulher disponível, faça seus “deveres de casa” antes de “comer na rua” - afinal de contas, traição não é traição: é só uma “puladinha de cerca”. Somos homens, machos e temos nossos desejos e instintos naturais, não é mesmo? 

Sim, estamos em pleno século XXI e boa parte da educação masculina brasileira ainda segue esses moldes - e levando-se em consideração que a mulher é a considerada a principal responsável pela educação dada aos filhos, temos aí um grande problema: mulheres estão repetindo padrões da educação machista que receberam. Tal como a educação que um dia a mãe do Zé Mayer deu para ele - tendo o pai ou outras figuras paternas dando os mesmos exemplos que vivenciei, mas em sua época.

A mudança de comportamento não é algo que acontece da noite para o dia. Eu mesmo, passei por um processo longo e doloroso para me desfazer de dogmas morais e preconceitos sociais - dada toda a bagagem cultural e padrões familiares que carrego comigo, desde a minha infância. 

Se o Zé se propuser a mudar, ele vai mudar. Eu sei, porque mudei. Eu mesmo, fruto de uma geração machista (nascido nos anos 70) já mudei MUITO o meu comportamento  - tanto que a minha esposa sempre me diz que sou mais muito mais feminista que ela. Eu, pai de uma menina - sei exatamente o Mundo que eu quero para que ela viva com seus direitos e deveres garantidos, com respeito pessoal e muita segurança profissional. Sou bem diferente dos pais de antigamente, que só desejavam que a filha conseguisse um “bom partido” para casar e com ele permanecesse, até o fim dos seus dias - custe o que custar (até mesmo sua felicidade pessoal).

Mas…

A mudança também aconteceu do lado de lá: as mulheres com suas conquistas sexuais, laborais e políticas também passaram a ter padrões de comportamento antes só observados em homens.

Vou dar um exemplo: já saí várias vezes com amigas - algumas mais novas, outras mais velhas - e em barzinhos e restaurantes, cansei de ver as mesmas assediarem garçons jovens e bonitos, sem se importar se eles gostariam do assédio ou ainda, se os mesmos fossem comprometidos e héteros. Vi toques sutis em seus braços quando serviram bebidas, olhares que ultrapassavam todos os limites do flerte e palavras que deixavam os moçoilos ruborizados. Sim, meninas. Isso também é assédio.
 
Na cabeça de um mulher típica, um homem gosta de ser assediado, pois isso faz parte da nossa natureza predadora, né?

“Que homem reclamaria do assédio de uma mulher? Não é macho?”

Pois é.

E exatamente por essa cobrança social, dificilmente você verá um homem prestar queixa por assédio sexual feminino ou por gays -porque isso iria contra todas as expectativas que a sociedade e toda uma cultura formada nela, esperam dele. Seus amigos ririam, tirariam sarro, viraria alvo de piadas infames. Sua companheira não acreditaria - pois acharia que ele “deu trela, deu mole”. E todo o resto da sociedade acharia que ele não gosta do sexo feminino. 

Nesse ponto, as mulheres levam ampla vantagem: enquanto apenas a palavra de um suposto assédio ou estupro têm validade para elas - nós homens, somos desacreditados apenas por sermos… homens.    

O fato é que o assédio é constrangedor e é praticado por todos os gêneros. Assédio é crime e deve ser tratado como tal - pelo menos é o que se espera disso. Peraí, Fabão! Como assim “se espera”?

Bem, vi o seguinte diálogo em uma rede social (e vários outros que se aproximavam desse contexto):

- José Mayer é um velho tarado asqueroso e nojento!
- Mas e se fosse o Caio Castro?
- Ahhhhh! Mas aí era o Caio Castro, né? Kkkkkkkkkkk!!!

O que dá a entender que a punição para o assédio é seletivo: se for do seu agrado, tá de boa - não é crime. O Zé estaria penando em seu calvário apenas por ser sexagenário, velho e “babão”. No sex appeal for you, old man! Finish him!

Se esse for o pensamento dominante atual das mulheres - não sei nem o que pensar, só dizer:

E agora, José? 

e torcer para as coisas mudarem, dos dois lados.

 

Nota: Assédio sexual ou moral é um crime continuado, progressivo e cujo abuso só tende a aumentar com o passar do tempo. O assédio só para quando você denuncia. Se você sofrer assédio - homem ou mulher - tenha coragem e denuncie. 

Fábio Marchi

Jornalista, designer, fotógrafo, webdeveloper, profissional de marketing e social media, bacharel em Direito, escritor, blogueiro, político e ainda sobra um tempo para ser Diretor de Conteúdo, do Jornal MS Diário.

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