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O dia em que libertei-me do vício

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O dia em que libertei-me do vício

O dia em que libertei-me do vício

Sou um cara de sorte: consegui me livrar de uma das doenças que mais mata no mundo - o tabagismo.

O cigarro esteve presente na minha vida desde muito cedo: meu avô materno Domingos era fumante desde os 11 anos de idade, mais ou menos a mesma época em que ele saiu de casa para ganhar o Mundo.

Para agravar a situação, meus pais eram fumantes: minha mãe deu uma parada na gravidez - mas retornaria a fumar novamente, em seguida, para parar apenas quando já estava idosa.

Porém durante a minha infância e durante os primeiros anos da minha adolescência, o cheiro do cigarro me incomodava. Lembro-me perfeitamente até de recriminar os meus pais, quando baforavam dentro de casa ou do carro.

Então lá pelos meus 13 anos de idade, não teve escapatória. Fumar era um sinal de status entre os amigos e colegas: passava aquela imagem de poder e rebeldia que os garotos tentam exalar e que invariavelmente, acabavam umedecendo calcinhas púberes. Com o cigarro, vieram também os primeiros porres. 

Era um fumante de final-de-semana: comprava, fumava na rua e antes de chegar em casa, jogava o que sobrava do maço na lixeira. Na época eu morava com meus avós maternos e se desse ruim, matar eles não me matariam - mas saberiam me castigar nas coisas que eu gostava: discos, programas de tv, quadrinhos e cinema.

Meu avô era aquele italianão das antigas, que fumava no seu quarto, fumava na varanda de casa e fumava em sua oficina - no finalzinho da madrugada, ouvindo as notícias em seu radinho de pilha. Ele havia começado a fumar muito cedo, mas não admitiria que seu neto fumasse, também - ainda que não fosse o exemplo ideal para exigir isso.

Um dia minha tia Cecília (uma tiazona solteirona que também morava com meus avós - e cuidou de mim desde bebê) pegou algumas roupas com as quais havia saído e esfregou na minha cara, dizendo:

“Se eu sentir novamente o cheiro de cigarros em suas roupas, além de contar para seus avós, vou fazer você comer cigarros até você cagar charutos”.  

Era hora de dar uma parada. E eu parei. Não gostava mesmo, era só para impressionar a meninada - eu tinha outras cartas na manga, tal como uma banda de rock. Então o cigarro passou a ser dispensável na minha perfomance de rebelde juvenil.

Então com cerca de 18 ou 19 anos de idade eu conheci uma garota e apaixonei-me, por ela - porem ela fumava, e não era pouco.

No início eu não fumava. Já faziam pelo menos uns 4 anos que não tragava mais a nicotina para dentro dos meus pulmões. Mas a gente se beijava muito - e aquela língua com gosto de fundo de cinzeiro passou a se tornar cada vez mais agradável. 

Não me recordo quando ela me ofereceu um cigarro. Pra dizer a verdade, não me recordo se fui eu quem pediu. O que me recordo é que em poucas semanas ao seu lado, eu já estava fumando diariamente. Passei a fumar a mesma marca que ela, para facilitar os momentos desse prazer mórbido.

Fiquei com ela dois anos. E quando terminamos, eu estava fumando um maço de cigarros por dia.

Sempre fui um cara estressado, hiperativo, ansioso, ligado no duzentos e vinte. E ser assim - desse jeito - facilitou cada vez mais o abuso no consumo dessa droga: sempre precisava de um cigarro para relaxar. De vez em quando eu variava: fumava charutos importados em ocasiões especiais e até comprei um cachimbo de madeira: o fumo aromatizado sabor chocolate incrementava a atmosfera do meu ambiente de trabalho e me dava um ar “intelectual” clássico.
 
Fumei até no velório do meu avô Domingos, morto por conta de um câncer que começou nos pulmões e generalizou-se pelo seu frágil corpo. Fumei mesmo sabendo que aquela merda empacotada em frágeis rolinhos de papel havia matado o homem que havia sido um pai para mim.

Nessa época eu estava noivo de uma garota e seus pais fumavam - logo, não se importavam com o meu vício. Ainda que nosso relacionamento de oito anos não tenha dado certo, fiquei muito triste quando soube que seus pais estavam doentes - ambos com câncer. Ainda tive tempo de visitar a sua mãe no hospital - já em fase terminal, morfina não fazendo mais efeito. Ela faleceria em poucos dias e seu marido, no mês seguinte.

Meu avô e os pais da minha ex-noiva morreram de câncer. Isso foi provocado pelo cigarro? Não sei. Só sei que os três fumavam a mesma marca “Ritz” (produzido pela Souza Cruz), um cigarro de baixa qualidade que bolivianos vendiam pelas esquinas de Corumbá, por cerca de 1/4 do preço de um cigarro produzido para o mercado nacional - e até hoje nada me tira da cabeça que esse tipo de cigarro, sem controle algum de qualidade, tenha de alguma forma acelerado ou agravado as condições para o surgimento da doença.

Se tudo, ABSOLUTAMENTE TUDO que compõe um cigarro faz mal a saúde (aproximadamente 5.315 substâncias, 4.700 substâncias tóxicas, 47 substâncias cancerígenas) em níveis “controlados” pelo Ministério da Saúde (um absurdo, isso), imagine produtos que são fabricados e distribuídos sem NENHUM controle de qualidade?

Mesmo assim, continuei fumando. Porque o vício meus amigos, faz a gente ter a falsa sensação de que “isso foi puro azar, isso não acontecerá comigo”. Ou ainda “eu não fumo a quantidade que eles fumavam” ou “eu paro no momento que eu quiser”. ESSA é a mentalidade de um viciado. E eu era um deles.

Continuei fumando até meados de 2004. Eu havia sido contratado para ajudar no marketing de uma campanha política e ainda por cima, dividia meu parco tempo entre o trabalho e minha faculdade de Direito. Naquela época, as campanhas eram longas e começavam cedo, durando quase 6 meses onde os dias de trabalho começavam assim que o sol raiasse e iam madrugada afora. Nessa época, eu estava consumindo cerca de dois maços e meio de Marlboro vermelho por dia - e se saísse para uma noitada regada a cerveja, ia mais um maço extra até o final da noite. 

Minha aparência era ruim: as mãos eram amareladas, meu cabelo perdeu seu brilho, perdi alguns dentes por conta da associação desastrosa de nicotina + bruxismo noturno ( que me custariam milhares de reais em implantes, depois ) e passei a ficar cansado e com taquicardia por conta de subir um simples lance de escadas. Passei a alimentar a certeza que se continuasse nesse caminho, câncer seria o de menos: eu estava caminhando para uma morte súbita e sem chance de defesa.

Então tomei a melhor decisão que poderia tomar, na minha vida: Eu iria parar.

Naquele dia de expediente na produtora da campanha, levei dois pacotes de cigarros, meu isqueiro de metal Zippo e seus acessórios comigo e dei para os outros colegas fumantes do trabalho (e hoje eu me arrependo disso, deveria ter jogado fora).

Lembro-me que eles disseram:

“Olha lá, hein? Não vá se arrepender depois! Deu, tá dado!”.

Ao que eu respondi:

“Tranquilo, é para sempre. Parei de verdade, não quero mais.”

Eu gostaria de dizer que a partir daquele momento meus dias foram bons, mas não foram. Vivi um verdadeiro inferno nos dias posteriores a minha corajosa decisão em parar de fumar bruscamente: nada de reduzir a quantidade, nada de adesivos de nicotina, nada de remédios, nada de ansiolíticos, nada de sprays na boca. Eu sempre soube que um vício eliminado é substituído por outro vício - e não queria viciar-me em mais nada, naquele frágil momento da minha vida.

Concentrei-me na desintoxicação: andava com um tupperware com frutas fatiadas e uma garrafinha de água. Toda vez que eu sentia vontade de fumar, comia um pedacinho de fruta e bebia água. Se eu ficava cerca de 5 ou 8 minutos fumando um cigarro, esse era o tempo em que eu ficava mascando um pedaço de fruta e bebendo água.

Sentia enxaquecas terríveis e em determinados momentos, sentia tremores. Acordava de madrugada encharcado em suor, o lençol do lado em que eu dormia ficava amarelado e cheirando a alcatrão e nicotina. Esse inferno durou por cerca de um mês. Por três meses, se aparecesse alguém fumando na televisão, em um filme ou novela - dando aquela tragada profunda, prazerosamente mortal - minha boca salivava como se estivesse diante da melhor picanha assada do mundo.

Meu cérebro tentava de todas as formas me obrigar a colocar novamente um rolinho venenoso na boca. Mas eu suportei firme e ao final dos três meses, o cheiro do cigarro me dava náuseas, dor de cabeça. Estava desintoxicado.   

Nunca mais fumei novamente. Há 13 ANOS estou livre deste vício maldito que além de consumir dinheiro, consome a coisa mais valiosa da sua vida: a saúde. 

Hoje o cigarro é indiferente na minha vida - apesar de ficar profundamente irritado com quem fuma próximo à mim. Não por uma hipotética recaída - longe disso - mas porque é um cheiro desagradável na minha vida e que me traz tristes recordações.

Hoje, no Dia Mundial Sem Tabaco eu espero sinceramente que você,  fumante viciado em nicotina (sim, você é um viciado queira ou não) consiga parar antes que seja tarde demais.

Eu sei que para um viciado como eu era, o aumento do ritmo cardíaco, infarto agudo do miocárdio, derrame cerebral, angina, elevação do colesterol ruim (LDL), menopausa precoce, gastrite, úlcera gástrica, enfisema pulmonar, bronquite crônica, doença obstrutiva arterial periférica, tromboangeite obliterante, obstrução progressiva das artérias que pode culminar em amputação, além dos sintomas agudos como irritações nasais, na garganta e nos olhos, tonturas, dor de cabeça e CÂNCER não quer dizer muita coisa.

O vício sempre vai falar mais alto: ele vai inventar uma desculpa, criar uma falsa verdade, tentar subornar a sua força de vontade.

Sou muito grato a mim mesmo, por ter parado de fumar. E sinto-me  um ser humano de muita sorte por ter saído desse jogo, sem sequelas muito graves (ainda que elas porventura existam).

E espero que sinceramente quando você cair em si e tomar consciência de que a sua vida é mais importante que um rolinho de papel, não haja mais nada para se fazer, tal como uma bituca descartada em um cinzeiro. 

Boa sorte e sabedoria, em suas decisões.

Fábio Marchi

Jornalista, designer, fotógrafo, webdeveloper, profissional de marketing e social media, bacharel em Direito, escritor, blogueiro, político e ainda sobra um tempo para ser Diretor de Conteúdo, do Jornal MS Diário.

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