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O dia em que tornei-me o Dr. House

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O dia em que tornei-me o Dr. House

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Não desmereçam a Ciência, kids!

Nasci com quase VINTE E QUATRO horas de “atraso”: o médico que faria meu parto esperou sair do seu plantão (gratuito) para só então fazê-lo. Como resultado dessa ganância que faria Hipócrates bater de pergaminho na sua cara, faltou oxigenação no meu cérebro e parte dele morreu, causando-me uma disritmia cerebral que foi diagnosticada aos quatro anos de idade (quando passei a apresentar ausências e desmaios) e que me acompanhou até os 21 anos - quando meu sistema nervoso central já estava plenamente desenvolvido, com as conexões nervosas que foram perdidas, refeitas.

Esse problema de saúde na minha infância me trouxe algumas consequências indesejadas: sofria muito bullying por estar sempre dopado (tomava 100mg de Gardenal duas vezes ao dia) e até  meados da minha adolescência eu achava que era louco porque Corumbá - minha cidade natal - não tinha máquina de eletroencefalograma: logo eu tinha que viajar com meus avós para a capital Campo Grande, e realizar meus exames neurológicos no SANATÓRIO MATO GROSSO. Sim, é isso mesmo o que você leu. Pensa em uma criança de 6 anos entrando em um lugar com gente batendo cabeça na porta e conversando com a fotografia de uma enfermeira  impressa em um pôster na parede. NÃO TINHA COMO eu não achar que não era maluco - e esse sentimento reprimido um dia acabou explodindo na escola, mas isso é outra história.

Por outro lado, eu sempre gostei de ler e meus avós me incentivaram MUITO nessa atividade: compravam para mim todos os livros e gibis que eu desejasse - e eu passava muitas e muitas horas lendo sobre assuntos variados, da Turma da Mônica e Pato Donald até astronomia, biologia e literatura médica.

A minha doença acabou atiçando a minha curiosidade científica, pois eu não compreendia como um simples comprimido me transformava em um zumbi, evitando assim que eu me convulsionasse, mordesse minha lingua ou morresse asfixiado durante uma convulsão. Talvez por isso, durante muito tempo meu desejo era ser médico - mas na época as coisas eram diferentes, não tinham as mesmas facilidades de hoje. Ademais, minha família nunca deu muita bola para o assunto (“Fábio sonha demais”) e c'est la vie, vida que se segue.

O tempo passou e curei-me da disritmia, mas os traumas dela ficaram: certa vez quando eu tinha uns dez ou onze anos de idade - após uma avaliação médica do único neurologista da cidade dizendo que eu já estava curado - eu tive uma convulsão daquelas. O pior é que estava preparando-me para ir à escola, após o almoço e a crise veio exatamente quando eu estava no meu quarto, penteando meu cabelo no espelho. Eu vi meu rosto, os músculos sendo repuxados e deformando a minha face do lado DIREITO, uma sensação de formigamento e dormência indescritíveis e o coração querendo sair pela boca. Mal tive tempo de abrir a porta do quarto e cair no chão. Ao contrário do que a maioria pensa, eu fiquei consciente durante todo o processo: em lampejos de visão, enxergava a expressão de desespero da minha tia Cecília e da minha avó Helena, os gritos delas chamando meu avô Domingos para pegar o carro e me levar para o hospital. Sim, eu vi e ouvi tudo. Lembro-me da vontade de falar e só sair espuma de baba, de não conseguir controlar nada. Naquele momento, achei que ia morrer - para mim, era o fim.

Obviamente, não foi.

Mas como eu disse ali em cima, os traumas ficaram:  passei a ter pânico de qualquer parestesia (sensação de formigamento, ardor, frio, dor, calor ou dormência em apenas uma determinada área do corpo) - em especial na minha cabeça. Até hoje incomoda-me ficar apenas com um lado do rosto voltado para o sol, por exemplo. A sensação de só um lado do rosto estar sentindo calor e o outro não, me incomoda tanto que inevitavelmente eu fico muito, muito, mas MUITO estressado, inquieto, impaciente. Eu tenho que ter a mesma sensação nos DOIS lados. E isso vale para todo o meu corpo, também.

Mas como merda pouca é bobagem, há cerca de quatro anos, tive Paralisia de Bell no lado direito do meu rosto. Parece coisa boba, mas isso aconteceu porque eu entrei com o meu corpo que havia viajado por cerca de 30 minutos até a Bolívia em um carro sem ar-condicionado, sob aquele solzinho de 40ºC à sombra de Corumbá e adentrei no ar-condicionado do Shopping China, ajustado para o modo esquimó. Minha pálpebra paralisou na hora, só lacrimejava. Em poucas horas, todo o lado DIREITO da minha face estaria paralisada, também. Foram três meses de tratamento entre corticóides e fisioterapia. Muitos choques e calor na cara depois, minha cara feia voltou à sua normalidade de sempre.

Há dois dias, eu estava muito estressado por conta do meu trabalho e então, subitamente senti uma sensação de calor na parte superior do meu tórax e que se estendia até a minha face, lado DIREITO.

Com 44 anos de idade, obeso, hipertenso e com ciência do que aquilo ali poderia significar - é OBVIO que eu me preocupei. Eu tenho um aparelho portátil de pressão em casa (eu sei, eu sei, não é tãããooo preciso quanto os manuais, mas dá para se ter uma noção se aumentou ou subiu) e ela estava alterada. Bem alterada.

Fui com minha esposa para uma UPA aqui perto de casa. Passei pela triagem, a pressão estava alta e mandaram aguardar. Trinta minutos depois, fui chamado para ser atendido e quinze minutos mais tarde estava defronte ao médico. Após entrevista, onde relatei tudo o que estava sentindo, ele me perguntou:

- Teve algum problema recente de saúde?
- Bem, eu tive uma inflamação no ouvido há uns 40 dias, o otorrinolaringologista tratou com corticóides.
- Qual lado?
- Direito.
- Você já teve algum problema de saúde além disso nessa área?
- Bem, eu tive Paralisia de Bell ness lado há quatro anos e…
- Ahhh, essa parestesia pode ter sido provocada pelo nervo auditivo, é uma consequência colateral comum nesses casos. Vou te receitar um antidepressivo que você vai tomar por 30 dias, ele vai agir no sistema nervoso central e você vai ficar como novo.

Nessa altura do campeonato, vocês podem imaginar a minha cara. Claro, ele poderia estar certo - eu não discordei dele desse ponto - mas ele nem auscultou o meu peito, não aferiu novamente a minha pressão, ninguém conferiu se havia oxigenação suficiente no meu sangue. Eu sou obeso, hipertenso, sedentário e estava com minha pressão alterada, sensação de calor no peito, pescoço e cara? Mesmo assim, pedi um encaminhamento para um cardiologista:

- Aqui é uma UPA, só atendimento emergencial. Não fazemos encaminhamentos aqui, só no Posto de Saúde.

Receita de antidepressivo na mão, resolvi que iria com Ana em um posto de saúde assim que nossa filha saísse da escola. Continuei monitorando minha pressão, ela estava normalizada, apenas a parestesia da sensação de calor que não passava de jeito nenhum.

Googleamos um posto de saúde nas redondezas mais próximo de casa e fomos para lá. Após uma hora entre ser avaliado e atendido, deparei-me com o médico e passei a relatar o que estava sentindo. Então ele respondeu para mim:

- Vou dizer para você o que eu sempre digo para os meus pacientes:  acorde as três horas da manhã, dobre seus joelhos e ORE. Não há mal que não possa ser curado pelo médico Jesus. Isso é falta de orar, meu filho.

Não, isso não é uma brincadeira. Ele disse exatamente isso para mim, com essas palavras. Não desmereço a religião de ninguém, mas eu fui à um posto de saúde buscando uma cura para meu corpo FÍSICO - se eu quisesse uma cura ESPIRITUAL procuraria uma igreja, templo, terreiro ou qualquer tipo de organização religiosa que seja para tal. E depois, Jesus não resolveria meu caso - eu sou BUDISTA. Sei que existem casos de saúde onde a fé faz MILAGRES, literalmente - mas minha expectativa ali não era essa.

Resolvi não discutir. Boa parte da minha hipertensão é emocional e quando isso acontece, ela vai lá em cima. Cheguei a conclusão que não vale mais a pena discutir nesses casos. Saí de lá apenas com as receitas dos meus remédios hipertensivos - para não perder a viagem. 

- Doutor, pode me encaminhar para um cardiologista?
- Esse posto é só para emergências. Você terá que ir à uma Unidade Básica de Saúde Familiar.

Resignado, fui à farmácia comprar a porra do antidepressivo - da classe dos tricíclicos, que aumentam o apetite e retém líquidos - tudo aquilo que um gordo obeso e hipertenso como eu precisa, não é mesmo? Mas era a minha melhor opção do dia. Súbitamente, eu tive um insight, um momento ILUMINADO: enquanto a atendente tirava minhas digitais para a compra do antidepressivo (ok, é brincadeira, mas só faltaram me fotografar para a compra do remédio - me senti comprando algo muito, muito HARD) eu vi uma caixa de Complexo Vitamínico B. 

Há algum tempo eu havia lido um artigo médico onde dizia que os usuários de medicamentos de uso constante e à longo prazo como hipertensivos acabam sofrendo de carência de vitamina B - essenciais ao bom funcionamento dos neuroreceptores do sistema nervoso. Acabei levando à tiracolo o complexo vitamínico B, também.

Cheguei em casa e tomei uma boa dose de vitamina B. Não tomei o antidepressivo. Acordei bem, a sensação de calor diminuiu MUITO e nem de longe se compara à angustia que vivenciei ontem. Mais tranquilo e sem o estresse da sensação incômoda, a pressão arterial normalizou-se e eu me vejo sorrindo ao olhar para o aparelhinho marcando 11 por 7, 78 bpm. Me senti como o Dr. House, o médico da série televisiva que diagnostica as doenças mais esdrúxulas que você possa imaginar.

No final das contas, o que acabou resolvendo o meu problema foi a minha automedicação - algo que não recomendo para NINGUÉM. Eu só fiz porque eu tenho um PARCO conhecimento no assunto, não estava mais a fim de passar raiva com mais nenhum “profissional” de saúde e assumi esse risco.

Isso é claro, não vai me impedir de fazer uma nova avaliação cardiológica com um profissional de VERDADE e com certeza, foi a gota d’água para uma vida menos sedentária e mais saudável.

Afinal de contas, só de saber que corro o risco de chegar em um pronto-socorro e que existe a probabilidade de haverem profissionais dispostos a fazer um círculo de oração em torno de mim ao invés de prestar REAL atendimento médico, é um bom motivo para me manter disposto, saudável e VIVO pelo máximo de tempo que eu puder.

Fábio Marchi

Jornalista, designer, fotógrafo, webdeveloper, profissional de marketing e social media, bacharel em Direito, escritor, blogueiro, político e ainda sobra um tempo para ser Diretor de Conteúdo, do Jornal MS Diário.

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