
Pais querem uma solução urgente e definitiva para a proteção dos seus filhos que estudam na escola localizada no meio do Pantanal Sul-Matogrossense. | Créditos: Divulgação / WhatsApp
Publicado em: 30 de Agosto, 2025 | Fonte: Fábio Marchi
Corumbá (MS) – Pais de alunos da extensão escolar São Lourenço, localizada na região pantaneira da Serra do Amolar, em Corumbá, gravaram um vídeo que foi publicado nas redes sociais para denunciar o risco iminente de ataques de onças a crianças, professores e moradores da comunidade. A escola, inaugurada há cerca de um ano, segue sem a instalação da cerca de proteção prevista no projeto original, deixando os estudantes expostos.
Durante a gravação, mães e funcionários relataram a tensão diária causada pela presença do felino.
“Hoje a gente está aqui para falar sobre a cerca, que era para há muito tempo ter sido feita. Agora, no momento, a onça está atacando e a gente está aqui pela segurança de nossos filhos, dos professores e dos moradores. Até agora, nenhuma solução foi dada”, disse Irani, mãe de aluno.
Outra mãe, identificada como Bianca, reforçou a preocupação:
“A escola já tem um ano e até hoje o telado não saiu. A onça já comeu cachorro da comunidade e está prestes a pegar uma criança. Isso não é brinquedo, é coisa séria. Queremos uma solução rápida.”
É raro o ataque de onça à humanos - mas podem acontecer. Caso mais famoso e recente foi do ataque ao caseiro José Ávelo de 60 anos, na região conhecida como Pantanal do Touro Morto, localizada entre os rios Aquidauana e Miranda. | Créditos: Montagem / Midiamax
Falta de estrutura
Segundo os relatos, a comunidade chegou a receber a tela de proteção, mas os postes de sustentação – necessários para cercar aproximadamente 300 metros quadrados – nunca foram instalados. O material, que permanece abandonado, “já está criando raiz no chão”, como descreveu uma das mães.
Um funcionário da escola também destacou os horários críticos:
“Saímos às 5 horas da manhã para buscar os alunos. Justamente nesse horário, e também ao entardecer, a onça costuma atacar. Nós, funcionários, também corremos risco. Precisamos de uma resposta urgente da autoridade competente.”
Estatísticas do Pantanal
O problema não é isolado. Estudos do Instituto do Homem Pantaneiro (IHP) e de pesquisas da UFMS/Embrapa Pantanal apontam que, entre 2020 e 2024, foram registrados mais de 120 ataques de onças a animais domésticos (cães, cavalos e gado) em comunidades ribeirinhas do Pantanal de Corumbá e Ladário.
Embora não haja registros oficiais recentes de ataques a crianças, especialistas alertam que a aproximação das onças às áreas escolares e residenciais aumenta o risco. Segundo o biólogo Rafael Morais, que atua na região:
“As onças têm se aproximado cada vez mais de comunidades devido à perda de habitat e à abundância de presas domésticas. Quando começam a predar cães ou gatos, o passo seguinte pode ser um incidente com pessoas, especialmente crianças.”
Dados do ICMBio mostram que o Pantanal abriga cerca de 4,5 mil onças-pintadas, uma das maiores populações do mundo. Corumbá é o município brasileiro com maior concentração do animal.
Apelo da comunidade
Em coro, os moradores pedem que a Prefeitura de Corumbá e órgãos estaduais garantam o cercamento imediato da escola.
“Hoje ainda é um cachorro, mas e amanhã? Vai ser uma criança? Precisamos de ajuda urgente. A tela está ali, mas sem poste não serve para nada”, desabafou uma mãe, emocionada.
A comunidade também pede mais presença do poder público na zona rural, destacando que “ONGs vêm, mas nada se resolve”.
Autoridades
O MS Diário entrou em contato com a Prefeitura de Corumbá, que respondeu que expectativa é de que medidas emergenciais sejam tomadas.
O secretário municipal de Governo e Gestão Estratégica, Nilson dos Santos Pedroso, declarou:
“Já conversei com a secretária de Educação, Mabel Sahib, e também com a equipe do Meio Ambiente. Houve uma reunião ontem na própria escola. A tela de proteção já se encontra no local e estamos em processo de aquisição dos postes para a instalação completa do cercamento. Reconhecemos a urgência da demanda e tratativas estão sendo feitas em parceria com o grupo Ecoa, para que a solução seja definitiva, mas ainda não conseguimos definir um prazo.”
Também em nota ao MS Diário, a Prefeitura de Corumbá completou:
“A Prefeitura, por meio da FMAP, irá encaminhar uma equipe técnica para verificar a situação, conversar com os moradores e avaliar as ações imediatas possíveis. O vídeo foi enviado e estará sendo avaliado pelo grupo técnico formado pelo IBAMA, PMA, FMAP, Defesa Civil e IHP. O orçamento foi solicitado pela secretaria de educação para cercamento do local.”
Até lá, pais, alunos e professores convivem com a tensão diária de estudar e viver ao lado de um predador de quase 100 quilos, símbolo da biodiversidade pantaneira, mas também motivo de medo quando a convivência é forçada pela falta de proteção.
Confira o vídeo:
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