Publicado em: 23 de Outubro, 2026 | Fonte: Rafael Almeida
Uma negociação milionária envolvendo o patrimônio da tradicional Liga Árabe Brasileira de Corumbá voltou ao centro de uma polêmica judicial. O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) manteve a decisão que impede o registro da escritura pública de compra e venda de imóveis da entidade negociados com o empresário André Luiz dos Santos, conhecido como Patrola.
A decisão, tomada por unanimidade pela 4ª Câmara Cível, representa mais um obstáculo para o empreiteiro, que tentou garantir o registro dos imóveis em seu nome, mas teve o recurso rejeitado.
O que chama a atenção no caso não é apenas o valor da negociação, mas a sequência de suspeitas que envolve documentos, assinaturas, composição da diretoria e uma diferença milionária entre o preço de venda e o valor estimado do patrimônio.
Imóvel de até R$ 4,4 milhões foi negociado por R$ 1,9 milhão
Um dos pontos mais controversos da transação é o preço acertado. Conforme os elementos apresentados no processo, os imóveis foram negociados por R$ 1,9 milhão, embora avaliações apontem valores entre R$ 4,2 milhões e R$ 4,4 milhões.
A diferença pode chegar a R$ 2,5 milhões, levantando questionamentos sobre as condições em que o negócio foi realizado e os possíveis prejuízos ao patrimônio da entidade.
O desembargador Luiz Tadeu Barbosa Silva, relator do recurso, destacou a existência de elementos relevantes que colocam em dúvida a regularidade da operação.
Assinaturas sob suspeita e assembleia contestada
As suspeitas não param no valor da venda. Integrantes da Liga Árabe denunciam possíveis irregularidades na documentação utilizada para legitimar a negociação.
Entre os elementos apresentados à Justiça estão boletins de ocorrência e escrituras públicas de declaração de pessoas que aparecem como participantes da assembleia eleitoral da diretoria, mas afirmam não ter comparecido à reunião.
Essas pessoas também denunciam a suposta falsificação de suas assinaturas.
Outro ponto que chama a atenção é a composição da administração da entidade. Há indícios de que integrantes da diretoria teriam vínculos familiares com o responsável pela negociação, situação que levanta questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses.
As irregularidades apontadas ainda dependem de apuração e não representam, por si só, comprovação definitiva de fraude.
Patrola alega boa-fé, mas Justiça mantém bloqueio
Na tentativa de reverter a decisão, a defesa de Patrola sustentou que o empresário realizou a aquisição de boa-fé e vem depositando judicialmente os valores das parcelas previstas no contrato.
Os advogados também argumentaram que impedir completamente o registro seria uma medida excessiva, defendendo alternativas como a averbação da existência da ação judicial na matrícula dos imóveis.
A tese, entretanto, não convenceu o Tribunal.
Para o relator, o cumprimento das obrigações financeiras não elimina eventuais irregularidades na origem da negociação. Dessa forma, a restrição ao registro foi mantida enquanto a controvérsia judicial permanece sem solução definitiva.
Histórico de Patrola inclui polêmicas com obras públicas e compra de fazendas
O nome de André Luiz dos Santos já apareceu em outras reportagens envolvendo negócios milionários e contratos públicos em Mato Grosso do Sul.
Em 2023, o Jornal Midiamax revelou que o empresário teria adquirido propriedades rurais nas proximidades do traçado da rodovia MS-228, na região de Corumbá, onde uma de suas empreiteiras venceu licitação para executar obras.
Na ocasião, corretores e proprietários rurais ouvidos pela reportagem levantaram a hipótese de que as aquisições teriam ocorrido diante da expectativa de valorização das terras com a implantação da rodovia. A suspeita relatada, porém, não comprova qualquer irregularidade nas compras.
Condenação por corrupção e novas investigações
O histórico judicial do empreiteiro também inclui uma condenação em primeira instância, proferida em 2025, a cinco anos de reclusão por corrupção, em processo relacionado a um suposto esquema de propinas que teria movimentado mais de R$ 10 milhões em Campo Grande.
A condenação mencionada não deve ser confundida com decisão definitiva, já que não há informação, no material apresentado, sobre eventual trânsito em julgado.
Patrola também foi denunciado no âmbito da Operação Cascalhos de Areia, investigação envolvendo suspeitas de corrupção e organização criminosa.
Em agosto de 2026, uma nova fase da investigação, denominada Máquinas de Areia, voltou a colocar o empresário entre os alvos de apurações sobre supostos desvios milionários em contratos públicos de obras em Três Lagoas.
As empresas Engenex e MS Brasil Comércio e Serviços, apontadas como ligadas ao empreiteiro, também foram mencionadas entre os alvos.
Patrimônio histórico no centro de uma disputa milionária
O caso da Liga Árabe ultrapassa uma simples discussão sobre compra e venda de imóveis. A disputa envolve o patrimônio de uma entidade tradicional de Corumbá e levanta questionamentos sobre a transparência da administração e a legitimidade das decisões que autorizaram a negociação.
Por enquanto, a Justiça mantém o impedimento do registro dos imóveis em nome do empresário.
A pergunta que permanece é: como um patrimônio avaliado em até R$ 4,4 milhões acabou negociado por R$ 1,9 milhão, em uma operação cercada por denúncias de irregularidades documentais?
A resposta dependerá do avanço das apurações e do julgamento definitivo da controvérsia.









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