Pantanal MS
17 de Março / 2026

Silvia Aguilera, Silvia Quique e Maria Renèe podem fazer história na fronteira boliviana no próximo domingo (22). | Créditos: Divulgação

  • Publicado em: 17 de Março, 2026 | Fonte: Fábio Marchi

Corumbá - No próximo domingo, 22 de março, quando as urnas fecharem do outro lado da fronteira, os moradores de Corumbá podem acordar na segunda-feira com uma vizinhança inédita: três cidades bolivianas governadas, todas ao mesmo tempo, por mulheres.
As eleições subnacionais da Bolívia acontecem em todo o país neste final de semana e, na Província Germán Busch — o corredor boliviano que faz fronteira direta com o Pantanal sul-mato-grossense —, três candidatas disputam as alcaldías de El Carmen, Puerto Quijarro e Puerto Suárez. Seus nomes são Silvia Aguilera, Silvia Quique e María René Hoyos. Juntas, elas representam algo que a história política boliviana raramente viu: a possibilidade concreta de que toda uma região de fronteira passe a ser administrada por mulheres, simultaneamente.

A fronteira que Corumbá conhece bem

Quem vive em Corumbá sabe que a fronteira com a Bolívia não é apenas uma linha no mapa. É um fluxo diário de pessoas, mercadorias, histórias e relações. O comércio entre os dois lados pulsa na rua, no porto, na ferrovia. Famílias têm parentes dos dois lados. Trabalhadores cruzam a fronteira todo dia. O que acontece em Puerto Quijarro e Puerto Suárez importa — e chega rápido até aqui.

El Carmen, Puerto Quijarro e Puerto Suárez formam juntas um corredor estratégico no extremo leste do Departamento de Santa Cruz. São cidades de porte pequeno a médio, com economia baseada no comércio transfronteiriço, na atividade portuária e no setor de serviços. Todas têm suas singularidades, mas compartilham uma mesma dinâmica: a vida na fronteira, marcada pela mistura cultural e pela dependência econômica mútua com o Brasil.
 

Um domingo, quatro urnas

Para entender o contexto em que essas candidaturas se inserem, é preciso compreender como funciona o sistema eleitoral boliviano. No domingo, a cidadania boliviana vai às urnas para eleger cerca de 5.000 novas autoridades simultaneamente: governadores departamentais, asambleístas departamentais, alcaldes e concejales municipais — tudo em um único dia, para o período constitucional 2026–2031.

Na prática, cada eleitor vota ao mesmo tempo para vários cargos. É como se, no Brasil, as eleições para governador, deputado estadual e prefeito acontecessem no mesmo domingo. No âmbito departamental, são eleitos governadores e asambleístas — equivalentes, no sistema brasileiro, a governadores e deputados estaduais. No âmbito municipal, são eleitos alcaldes e concejales — equivalentes a prefeitos e vereadores.

É nesse cenário de múltiplas disputas simultâneas que as três candidaturas femininas da Província Germán Busch ganham ainda mais relevo — pois enquanto elas concorrem às alcaldías, a fronteira acompanha também uma das disputas mais acirradas pelo cargo de asambleísta departamental da região.
 

Silvia Aguilera (à esquerda) disputa a alcaldia de El Carmen - enquanto seu pai, Turco Aguilera disputa uma vaga de asembleísta. | Créditos: Divulgação / Facebook

Quem são elas

Nascida em 22 de novembro de 1988 no próprio município que quer governar, Silvia Aguilera é filha de El Carmen Rivero Torres. Advogada com mestrado em Administração da Justiça pela Universidade Gabriel René Moreno, ela também é pecuarista — e não esconde que foi o campo, tanto quanto o direito, que moldou sua visão de mundo. É dessa dupla identidade, entre a lei e a terra, que nasce sua candidatura.

Há ainda um detalhe que torna sua corrida ainda mais singular: Silvia é filha do candidato a asambleísta conhecido como Turco Aguilera — de longe o nome mais forte da fronteira na disputa por uma cadeira na Assembleia Departamental de Santa Cruz, o equivalente boliviano da Assembleia Legislativa estadual. Pai e filha disputam, no mesmo domingo, cargos diferentes mas igualmente estratégicos para o futuro da região. Enquanto ele concorre a uma das vagas mais cobiçadas do legislativo departamental, ela quer o comando do executivo de El Carmen.

“Nasci aqui, cresci aqui e é aqui que quero deixar minha contribuição. Minha vocação sempre foi o serviço à comunidade. Tenho formação para defender direitos, tenho experiência para entender a realidade do produtor, da família rural. Quero unir essas duas coisas a favor de El Carmen.”

A empresária Silvia Quique quer trazer mais desenvolvimento para Puerto Quijarro. | Créditos: Divulgação / Facebook

Em Puerto Quijarro, cidade gêmea de Corumbá e a mais conhecida dos corumbaenses pela proximidade e pelo intenso comércio, a candidata é Silvia Quique. Empresária com raízes profundas na cidade, ela construiu sua trajetória no comércio local — passou anos como feirante e, com determinação, chegou a estabelecer relações comerciais com a China, expandindo seus negócios até se tornar proprietária do Hotel Sílvia e de outros empreendimentos na região. É dessa experiência prática de quem conhece a fronteira de dentro para fora que nascem suas propostas para a alcaldía.

Entre as prioridades do seu programa de governo, destacam-se a conclusão e o equipamento do Hospital de Segundo Nível — que representaria um salto histórico na saúde pública de Puerto Quijarro —, a construção de um Mercado Municipal moderno, a implantação de uma Planta de Água Potável e de uma Planta de Resíduos Sólidos. Na área social, Silvia propõe a criação da Avenida Cultural "Senda Pantanera", a reabertura da creche municipal e a garantia de um Centro de Educação Especial para pessoas com deficiência. Para a segurança, prevê câmeras de monitoramento em pontos estratégicos e um projeto de proteção escolar em parceria com a polícia. Já no campo econômico, propõe a reativação da zona franca no município e a modernização da terminal internacional — medidas que afetam diretamente o comércio com o Brasil.
 

“Comecei como feirante, aprendi o valor de cada negociação nessa fronteira e fui até a China buscar oportunidades para o nosso comércio. Essa caminhada me ensinou que Puerto Quijarro tem um potencial enorme — e que ele só se realiza com trabalho e com coragem. Quero trazer essa mesma determinação para a alcaldía: um hospital de verdade, água potável, ruas pavimentadas, zona franca ativa. Não estou aqui com promessas vazias. Estou aqui porque conheço essa cidade de perto, sei o que falta e sei como buscar.”

Vista parcial de Puerto Quijarro - cidade faz fronteira direta com o Brasil. | Créditos: Drone: MS Diário / Divulgação

Maria Renèe Hoyos em campanha, disputa a alcaldia de Puerto Suárez - em foto ao lado do seu marido. | Créditos: La Noticia

Já em Puerto Suárez, a maior cidade da Província Germán Busch e sede da capital provincial, a candidatura feminina é a de María René Hoyos Medina. Cruceña de 27 anos, ela é empresária e proprietária da Family Farm, sediada em Puerto Suárez. Antes de entrar na política, María René já havia construído uma trajetória de envolvimento comunitário: junto a outros empresários da região, criou um fundo social de apoio à população local e patrocinou iniciativas nas áreas esportiva, educacional e cultural em toda a província.
 

“Eu sempre acreditei que quem tem condições de gerar desenvolvimento tem também a responsabilidade de fazê-lo. Na Family Farm, nos fundos sociais, nos projetos que apoiamos — tudo isso foi uma forma de servir à minha comunidade. A alcaldía é o próximo passo. Quero colocar a mesma energia, a mesma visão de quem trabalha e conhece a realidade da nossa gente, a serviço de Puerto Suárez.”

Um feito raro na Bolívia — e no continente

Para entender o peso do que pode acontecer no domingo, é preciso conhecer os números. A Bolívia vive um paradoxo político em relação ao gênero. No parlamento nacional, o país ocupa posição de vanguarda mundial: segundo dados da ONU Mulheres e da União Interparlamentar (UIP), a Bolívia é um dos apenas sete países no mundo onde as mulheres detêm 50% ou mais das cadeiras no parlamento, com 51% de representação feminina na câmara baixa.

Mas esse avanço excepcional no legislativo não se traduz nos cargos executivos municipais. A alcaldía — equivalente à prefeitura — é um espaço que as mulheres bolivianas ainda conquistam a passos muito lentos. Nas inscrições para as eleições subnacionais de 2026, o Tribunal Supremo Electoral registrou 34.618 candidaturas em todo o país, mas a participação feminina nas disputas pelo executivo municipal segue muito abaixo da paridade — concentrada, como de costume, nas listas legislativas onde a lei exige alternância.

Esse contraste entre avanço legislativo e exclusão executiva é, segundo a ONU Mulheres, um padrão global preocupante: as mulheres representam menos de um quarto dos membros de gabinetes ministeriais no mundo, e os portfólios que lhes são mais frequentemente destinados são os de assistência social e família — longe dos centros de poder econômico e territorial. Chegar às urnas como candidata ao executivo já é, por si só, um ato de resistência.
 

O peso do domingo

As eleições subnacionais bolivianas de 2026 elegem alcaldes e concejales em todos os municípios do país. Os resultados preliminares serão divulgados ainda na noite do próprio dia 22, e as credenciais das autoridades eleitas serão entregues no dia 9 de abril. Não há segundo turno para alcaldías — quem tiver mais votos leva. Isso significa que a história — ou não — será escrita em poucas horas.

Se as três candidatas vencerem, a Província Germán Busch se tornará um caso singular na política boliviana: uma região inteira, estratégica, de fronteira, sob o comando exclusivo de mulheres. Um sinal vindo justamente de onde a Bolívia encontra o Brasil.
Do lado de cá da fronteira, Corumbá observa quais as páginas que seus vizinhos escreverão em suas histórias, no próximo domingo.


* Fontes: ONU Mulheres; União Interparlamentar (UIP) — Women in Politics 2026; Tribunal Supremo Electoral da Bolívia (TSE) / Órgano Electoral Plurinacional (OEP) — Eleições Subnacionais 2026.
** As eleições subnacionais bolivianas acontecem em 22 de março de 2026. A apuração começa logo após o fechamento das urnas.

Comentários