Pantanal MS
24 de Julho / 2024
  • Publicado em: 04 de Julho, 2024 | Fonte: Fábio Marchi

Corumbá - Pouca gente se lembra quando eles chegaram em Corumbá na década de 1980: muitos vieram de outras partes do Estado e até mesmo do Brasil e se juntaram com algumas famílias da Cidade Branca em busca de um pedaço de terra para plantar e produzir alimentos. Após uma longa negociação política e econômica sobre as áreas que eles poderiam ocupar seus assentamentos - no entorno urbano da Cidade Branca e uma boa parte ocupando uma faixa fronteiriça que nenhum fazendeiro queria - os assentados estão integrados na cultura corumbaense há quase 40 anos, comercializando suas verduras, frutas, vegetais, queijos, leite, rapaduras, doces e o que mais eles conseguem produzir nas terras pantaneiras de difícil manejo e sem água potável para sua sobrevivência.
 

O MS Diário foi até o Assentamento Taquaral, localizado no extremo oeste de Corumbá - literalmente terras que fazem fronteira com a Bolívia - para conhecer um pouco das dificuldades que aquela parcela da população corumbaense enfrenta, nos dias atuais. Para essa tarefa, nossa equipe de reportagem encontrou muita resistência para encontrar um assentado disposto a falar sobre os seus problemas - pois eles temem muito as represálias do Executivo Municipal. Das várias tratativas que o MS Diário fez para essa matéria, apenas o Presidente da Associação dos Assentados do Taquaral se dispôs a falar, o Sr. Jairo Barbosa (55), que é “parceleiro”(a denominação para quem possui uma “parcela” de terra do assentamento) desde o final de 1989:

“A gente tem uma grande desvantagem política: Dizem que o voto é secreto, mas o Prefeito e todo mundo sabe como a gente vota, porque as urnas ficam nos assentamentos. Logo, dependendo do resultado, o prefeito sabe como foi a votação aqui e decide se “vale a pena”ajudar ou não a gente, é muito injusto conosco, muita gente vota com medo das ameaças que se os votos não forem do agrado do prefeito, a gente vai sofrer, ser ignorado. Na prática, é isso o que está acontecendo.” 

Vista parcial do Assentamento Taquaral, localizado no extremo oeste de Corumbá. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

Segundo Jairo, os problemas estruturais e sociais dos assentamentos são muitos, mas uma boa parte deles pode ser resolvido apenas com um pouco de atenção do poder público.

O assentado Jairo Barbosa está na região desde o século passado (final de 1989). | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

SAÚDE

Distantes dos recursos urbanos para suas necessidades de saúde, os assentados têm à disposição apenas uma unidade de Estratégia de Saúde Familiar (ESF), localizada nas proximidades de uma das entradas principais do Taquaral. Completamente abandonada há vários anos, o prédio que deveria estar abrigando profissionais de saúde e realizando atividades de prevenção, vacinação e consultas está, aos poucos, sendo tragado pelo mato e animais peçonhentos.

“Hoje o que nós estamos vendo aqui, infelizmente, é um postinho de saúde abandonado, um prédio que era para estar atendendo todos os assentados aqui do Taquaral e de todos os assentamentos vizinhos. Hoje a saúde está funcionando de forma precária, provisoriamente improvisado lá na Agrovila III, onde era a escola perto do centro múltiplo de forma tão precária, que sequer tem internet. A internet, para ter o funcionamento necessário que tem lá segundo o que eu fiquei sabendo, partiu de uma vaquinha dos agentes de saúde para ter o básico quer dizer, total descaso do poder público. Infelizmente, a nossa situação hoje é essa.”

ESF Rural Taquaral - unidade encontra-se fechada há anos. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

Cadeado enferrujado e cartaz afixado na porta desde a pandemia, mostrando que ninguém visita o local há um bom tempo. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

A estrutura do prédio está completamente abandonada, descaso com o dinheiro público. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

Jairo relata que os assentados tem atendimento apenas duas vezes por semana - e apenas o básico.

“Dentista, faz o básico, o médico e tudo é encaminhamento São duas vezes por semana. Só aqui na região, em torno do, só do Taquarau, são 393, 994 mais os assentamentos, vai para em torno de mil e poucas famílias Duas vezes por semana, né? Maior parte vem aqui, atende também no Paiolzinho (outro assentamento) mas é uma situação mais precária ainda do que aqui.”

O presidente da associação também disse que quando ocorrem casos emergenciais, eles tem que “correr” até a UPA localizada na parte alta, região sul de Corumbá:

“Daqui, de onde nós estamos vai dar torno de uns 20 minutos, mas tem lugar que vai demorar meia hora, uma hora, dependendo também do tempo: se “estiver de lama”, de repente nem tem acesso, né? Tem que ver se tem um veículo bom, se estrada estiver boa, senão não chega vivo”. 

Unidade foi construída com verba federal e recebe verbas federais - mas nenhuma autoridade federal toma providências para seu funcionamento. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

A unidade de saúde deveria estar atendendo centenas de famílias - dinheiro público sendo jogado fora. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

A ironia: a caixa d'água da unidade de saúde é um criadouro do mosquito da dengue, ajudando a proliferar a doença no local. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

Local de funcionamento "provisório" do ESF local | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

"Centro de Múltiplo Atendimento" no Taquaral. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

Único acesso de internet no local, uma precária conexão por wi-fi - inclusive para o envio de documentações e exames do posto de saúde. Detalhe: o plano é pago pelos funcionários do local. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

Jairo diz que o sentimento é que a Prefeitura poderia fazer muito mais do que está fazendo, atualmente:

“O posto de saúde que não funciona, é o cemitério inacabado, é o lixão correndo a céu aberto Então, são vários, vários fatores que não tem como a gente não falar, né? Descaso mesmo, tanto do poder executivo, como também, até mesmo das autoridades ambientais que tem a capacidade de multar a gente quando corta uma árvore aqui no sítio e venda os olhos para um lixão a céu aberto, né? Coisas que a gente tenta, mas não consegue entender.”

Confira o depoimento completo sobre a saúde dos Assentados, abaixo:

A vegetação literalmente tomou conta da unidade de saúde dos assentados - total descaso com o povo e com o dinheiro público. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

O descaso com o povo dos assentamentos é sistêmico. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

EVASÃO DOS JOVENS

Um problema que os assentados vêm sofrendo de forma generalizada é a evasão do ambiente rural, pelas novas gerações. Segundo o presidente, o poder público ao não oferecer as condições necessárias para a cidadania e para a infraestrutura para o desenvolvimento do local, acaba contribuindo para a evasão dos jovens, que acabam descobrindo o “conforto” e as facilidades da cidade - e resolvem ficar no ambiente urbano.  

“Se não fizer algo, infelizmente, hoje, uma das coisas mais difíceis para nós assentados aqui é manter o jovem aqui no campo. Então, nossos filhos, a gente estuda, a gente cresce, cria o filho e de repente vai embora por falta de opção aqui dentro. Hoje existem mil e uma formas de agregar valor aos produtos aqui, de melhorar a qualidade dos produtos, de melhorar a produção e a gente fica nessa dependência de ajuda técnica, de ajuda financeira, de ajuda política, de uma política voltada para a agricultura familiar. Só quem tem posse artesiano que pode produzir o ano inteiro, os outros dependem das condições climáticas, né? Aí o jovem se cansa de viver essa vida e vai embora para a cidade, em busca de melhores condições - algo que poderia ser evitado, se pudéssemos viver dignamente por aqui.”

CEMITÉRIO

Dificilmente alguém que vive na cidade se preocupa com o cemitério local, salvo nas datas religiosas e Dia de Finados - até porque para muitos, é um local que pessoas vivas não gostam de pensar sobre o assunto e pelo fato de que essas pessoas vivem em um ambiente urbano, com planos de PAX e cemitérios legalizados e de fácil acesso. Mas para os assentados, a história é outra.
 

Cemitério dos Assentados, na região do Taquaral. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

Vivendo em localidades distantes do centro urbano, os assentados também possuem uma cultura muito conectada com sua realidade diária, com a terra que habitam. Ademais, pelas dificuldades óbvias de mobilidade, um funeral que seria simples em um ambiente urbano, para um assentado seria um evento trabalhoso, dispendioso e somados à dor do luto, acaba trazendo um impacto psicológico e emocional extra, para os amigos e familiares dos falecidos:  

“Dependendo da época do ano, das condições do tempo e do local, não tem carro funerário que chega aqui - aí é a gente que tem que levar o morto para a cidade, muita gente passou por isso. Como esquecer disso?” 

Quase toda família de parceleiros de Corumbá possuem familiares enterrados nesse cemitério. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

Para minimizar todo esse trabalho, a comunidade de assentados criou um espaço para que eles pudessem velar e enterrar seus mortos, uma área que está em funcionamento há pelo menos 15 anos, mas como parece ser de praxe pela Administração Municipal, até nisso eles foram ignorados:

“Essa aqui é mais uma obra que começou e está parada por descaso do poder público, né? Aqui houve o recurso para se fazer a obra, a capela, o alambrado em volta. Houve todo o começo da obra, e era para ser terminado antes da pandemia. Aí veio a pandemia, meio que deu uma parada, e quando era para retornar as obras, a empresa que ganhou a licitação, por conta de acréscimo no material e tal, pediu um aumento, um acréscimo no preço. E em contrapartida, a prefeitura não disse não, mas também nunca revisou nada, e esse tempo todo está parado."

Cemitério precisa ser legalizado para que familiares sintam-se seguros sobre o destino dos seus entes queridos. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

De acordo com Jairo, junto ao cemitério os assentados construíram uma pequena capela para que velórios pudessem ser realizados no local - mas a Prefeitura veio e destruiu a capela que eles ergueram com suas próprias mãos, prometendo construir outra no local - algo que não foi feito até hoje:

“A parte do INCRA está liberada a área, está faltando somente terminar a obra aqui, para daí ser liberado também pela parte ambiental, para o cemitério ser legalizado. É tudo que nós estamos precisando aqui, é essa parte da prefeitura que não foi feita.”

Jairo conta que os assentados ficaram muito revoltados porque a Prefeitura derrubou a capela anterior à obra, sem ao menos ter construído a nova, antes:

“Então, aqui foi feita uma capela, mutirão, né? As famílias se reuniram, fez uma capelinha para celebrar, para fazer oração. Aí, quando veio a obra, que era para ser terminada já faz muito tempo, a primeira coisa que fizeram foi retirar a capelinha que tínhamos feito e para “fazer uma padronizada” e tal. Moral da história: até hoje, nem a capelinha que nós tínhamos, nem a capela que era para ser feita."

Capela dos assentados foi destruída para que Prefeitura pudesse construir uma capela "padrão" no local. Até hoje a comunidade não tem nem a capela antiga, nem a nova. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

Jairo relata que esse é o cemitério dos assentamentos Taquaral, Paiolzinho, Tamarineiro I, Tamarineiro II Norte, Tamarineiro II Sul e até a região do Jacadigo, compreendendo algo em torno de 1.300 famílias. Segundo ele, esse cemitério é muito importante para a comunidade dos assentados, por uma serie de razões que vão desde a logística, até o emocional e espiritual dos familiares dos mortos:

“Quando falece uma pessoa aqui, além do abalo estrutural da família, de perder um ente querido, ainda toda essa problemática por parte de não ter um cemitério legalizado para sepultar essa pessoa conforme as normas, certinho, tem um sepultamento digno. A família, além do abalo emocional e estrutural, ainda sofre esse descaso, essa humilhação de ter que sepultar lá no Nelson Chama. A gente sabe que lá é provisório, é para um tempo determinado. Depois vai ter que tirar essa carcaça, sabe-se para onde, sabe-se quando. Então, tudo isso é um sonho nosso, legalizar o nosso cemitério para que evite todo esse transtorno. Quase toda a família tem um ente querido aqui. Então, é uma reivindicação de todos aqui do assentamento, legalizar o cemitério para que possamos ter um sepultamento digno, né?”

Obra de meados de 2021, foi abandonada pela Prefeitura de Corumbá. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

E apela:

“Eu gostaria de fazer um apelo às autoridades que possam ajudar a realização do término do cemitério, a legalização, sei lá, governador, prefeito, o poder público, de um modo geral, né? Que puder somar com a gente, para que terminamos aqui, para que possamos ter todo esse velório e sepultamento certinho aqui na nossa capela e de forma legalizada, de forma que a gente não tenha transtorno, que não tenha que estar levando para outro cemitério, né? Uma das alegações que acaba dificultando a legalização de um cemitério são as partes de licença ambiental, né? Mas essa área é bem cuidada, protegida, né? E o lixão de Corumbá, que na entrada do acesso ao assentamento, qual dos dois contaminaria mais o solo? Com certeza o lixão, que ali a gente sabe que desde o lixo comum até o lixo hospitalar, a gente sabe que ali tem produtos pesados, né? Que é radioativo, que provavelmente já contaminou o lençol freático, já contaminou todos os postos artesianos da região. Então, é incomparável, né? Não dá nem para comparar. Esse lixão aí é mil vezes pior do que um cemitério. Cemitério aqui, a pessoa é sepultada sete palmos abaixo da terra. É difícil imaginar que vai causar dano em alguma coisa, né?"

Confira o depoimento completo sobre o Cemitério dos Assentados, abaixo:

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