Jacaré sofre em meio à lama do minério de ferro, ao lado da estrada que leva à Porto Esperança - pequena localidade de Corumbá. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário
Publicado em: 11 de Junho, 2026 | Fonte: Fábio Marchi
Quem passa pelas margens do Rio Paraguai em Corumbá não precisa de relatório para perceber que algo mudou profundamente, na região: o movimento de barcaças e caminhões carregados de minério de ferro nunca foi tão intenso. Isso porque a LHG Mining, empresa do grupo J&F - o mesmo do caso JBS -, multiplicou por quase cinco vezes sua produção desde que adquiriu a Mineração Corumbaense Reunida (MCR), em 2022 - quando a extração era de “apenas” 2,5 milhões de toneladas anuais, em contraponto com 2025, onde foram 12 milhões de toneladas extraídas naquele ano. Para 2026, a meta é 16 milhões e com ele, um projeto de R$ 4 bilhões de reais, já protocolado nos órgãos ambientais do Mato Grosso do Sul, e que pretende chegar a 25 milhões de toneladas extraídas por ano no Complexo Morro do Urucum, no coração do Pantanal. O problema é que, enquanto a produção de minério de ferro explode, o retorno para o município e para as comunidades que vivem às margens do Paraguai foi na direção oposta.
Esta é a primeira matéria de uma série de reportagens especiais dobre o tema, que o MS Diário preparou especialmente para elucidar esse problema que a comunidade pantaneira vêm enfrentando, ano após ano.

Nunca se extraiu tanto minério de ferro na região de Corumbá, em tão pouco tempo - e também nunca a arrecadação de impostos pela atividade foi tão baixa. Contradições que independente de suas razões, estão impactando negativamente a economia, a cultura e a saúde da população local. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário
O FERRO na conta que não fecha
Documentos obtidos pela reportagem do MS Diário junto à Transparência da Prefeitura de Corumbá com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), revelam uma queda vertiginosa nos repasses ao município: a arrecadação de CFEM - a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, o chamado “royalty da mineração” - que em 2022 somava R$ 39,4 milhões ao município considerando todas as mineradoras da região, chegou a apenas R$ 19 milhões de reais, em 2025. Isso significa uma redução de mais de 50% em quatro anos. Só entre 2024 e 2025, a queda foi de 41%, representando uma perda de R$ 13,3 milhões para os cofres públicos em um único ano. O ISSQN - o imposto municipal sobre serviços - conta história parecida: apenas da LHG Mining, o município arrecadou R$ 23,7 milhões em 2024. Em 2025, esse valor caiu para R$ 14,25 milhões, uma redução de 40% em doze meses: mais minério sendo extraído, menos dinheiro chegando à cidade.
O que os balanços revelam do ferro
As demonstrações financeiras da LHG Mining Corumbá S.A., publicadas em abril deste ano no jornal Correio do Estado, jogam luz sobre um paradoxo: em 31 de dezembro de 2024, a empresa registrou prejuízo líquido de R$ 1,137 bilhão - contra lucro de R$ 315 milhões no ano anterior e os prejuízos acumulados chegaram a R$ 890 milhões.
A CFEM é calculada sobre a receita bruta de venda do minério, mas não sobre o volume extraído. Logo, se o minério fica no pátio por falta de escoamento - como ocorreu durante a seca histórica de 2024, quando o Rio Paraguai atingiu os níveis mais baixos dos últimos 120 anos -, não há venda, não há receita declarada e, portanto, não há royalty a pagar e nesse sentido, a empresa confirmou que a estiagem comprometeu significativamente sua principal rota de exportação, nesse balaço.
Mas a seca não explica tudo. Enquanto o prejuízo bilionário reduzia a base de cálculo dos tributos, o patrimônio imobilizado da empresa - máquinas, equipamentos, infraestrutura de mina - quase dobrou, saltando de R$ 1,09 bilhão para R$ 1,99 bilhão em um único ano. Os empréstimos e financiamentos também dobraram: de R$ 2,26 bilhões para R$ 4,53 bilhões ao longo desse mesmo ano. A expansão foi financiada a crédito e o próprio balanço registra que são os acionistas que garantem o fluxo de caixa para honrar esses compromissos.
Sendo assim, uma empresa que declara prejuízo bilionário enquanto dobra sua capacidade produtiva e anuncia R$ 4 bilhões em novos investimentos levanta uma questão que os documentos, sozinhos, não respondem: onde está o dinheiro que a terra está dando?

Atividade da mineração transformou por completo o bioma e a rotina do homem pantaneiro na região de Porto Esperança. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário
Porto Esperança: a comunidade que está sendo apagada na base do pó de ferro e da agressão ambiental
A cerca de 100 quilômetros ao sul de Corumbá, às margens do Rio Paraguai, Porto Esperança sempre foi um lugar de ritmo lento e economia da água. Ribeirinhos que viviam da pesca, do turismo rural e dos serviços que ofereciam aos visitantes: hospedagem simples, aluguel de barquinhos, venda de iscas, de bebidas, de peixe fresco. Um ecossistema econômico frágil, mas autossuficiente, construído ao longo de gerações sobre o mesmo bioma que hoje atrai olhares bilionários.
Hoje, esse equilíbrio está sendo desfeito: Moradores da região relatam pressão crescente para que famílias ribeirinhas deixem suas terras - terras que a mineradora precisa ou quer para ampliar sua logística de escoamento. Não se trata de uma remoção formalizada, com indenizações e processos públicos - é uma pressão difusa: ofertas indecorosas de valores abaixo do mercado, dificuldade de acesso a serviços básicos, isolamento progressivo. No final, o resultado é o mesmo - famílias que viveram às margens do Paraguai por décadas estão deixando a região.
Em meio a esse processo de esvaziamento, o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul investiu na pavimentação e melhoria da estrada de acesso a Porto Esperança. A justificativa oficial foi a de sempre: facilitar o acesso da população local, integrar a comunidade ribeirinha, promover o desenvolvimento regional - mas na prática, o que se viu foi algo completamente diferente:
Os moradores originais de Porto Esperança - aqueles em nome de quem a obra foi anunciada - estão sendo pressionados a deixar a região exatamente no momento em que a mineradora tem sede de expansão. A infraestrutura que deveria servir às famílias ribeirinhas tornou-se, na realidade, o principal corredor logístico da LHG Mining para escoar minério de ferro do Complexo Morro do Urucum até os portos às margens do Paraguai, em uma equação injusta: o Estado construiu, a empresa lucra e a comunidade sai.
Não há nenhum registro público de que o Governo do Estado tenha cobrado da mineradora qualquer contrapartida pelo uso intensivo dessa infraestrutura, em benefício para a população de Corumbá. Não há pedágio, não há balanças de pesagem, não há taxa de utilização, não há convênio que formalize a transferência desse benefício para a iniciativa privada. A estrada foi paga pelo contribuinte sul-mato-grossense - inclusive pelo ribeirinho que hoje não tem mais para onde voltar e está sendo monopolizada por uma empresa que muito pouco ou quase nada retribui para a própria comunidade que explora.
É um modelo que tem nome no debate sobre políticas públicas e mineração: a privatização dos ganhos e a socialização dos custos. A empresa recebe a infraestrutura pronta, financia sua expansão com dívida, declara prejuízo bilionário, paga menos royalties e impostos - e solicita nova licença ambiental para dobrar a produção. O Estado, por sua vez, arca com a estrada para o seu escoamento de produção, com o desequilíbrio ambiental, com o desgaste das demais vias, com o sistema de saúde pressionado, com os riscos de acidentes e mortes ampliados na região e com a conta que os cofres municipais não conseguem mais fechar.
Logo, a pergunta que a população de Corumbá e do Pantanal tem o direito de fazer é direta: em que momento o poder público deixou de representar o ribeirinho e passou a privilegiar o caminho de uma mineradora, sem nenhuma contrapartida justa para a população local?

Moradores relatam assédio para a desocupação de suas moradias localizadas dentro da área onde a mineradora exerce suas atividades de descarga e armazenamento de minério. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário
O turismo que não volta mais, provocado pela exploração mineral sem sustentabilidade
Por décadas, a pesca esportiva foi um dos pilares da economia local de Porto Esperança e das comunidades ribeirinhas ao redor de Corumbá: pescadores de todo o Brasil - e de países vizinhos como Paraguai, Argentina e Bolívia - chegavam em grupos para passar dias ou semanas no Pantanal, hospedados em pousadas familiares, guiados por pescadores locais, alimentados pela culinária ribeirinha e o dinheiro girava dentro da comunidade.
Com a intensificação do tráfego de caminhões pesados pelas estradas que cortam a região, esse fluxo entrou em colapso: as estradas, antes suportáveis para veículos de passeio e ônibus de turismo, foram transformadas em corredores logísticos da mineração. O pó levantado pelos caminhões - pó de minério de ferro misturado à terra - cobre vegetação, contamina mananciais e torna o trajeto desconfortável e, em alguns trechos, perigoso para quem não está em veículo pesado e acidentes já foram registrados, atingindo carros de passeio na BR-262.
Assim, por conta da movimentação intensa de veículos pesados dia e noite, da poeira e do barulho, o turista de pesca não voltou - e no seu lugar, chegaram os motoristas de caminhão.
À primeira vista, a ocupação hoteleira parecia uma compensação. Na baixa temporada - o período da piracema, quando a pesca esportiva é proibida -, os quartos que antes ficavam vazios passaram a ser ocupados por trabalhadores da mineração e os donos das pousadas locais respiraram aliviados - mas isso durou por pouco tempo, pois a conta não fechou: o motorista de caminhão da empresa terceirizada só consome o básico. O pescador esportivo apesar de ficar poucos dias, trazia família, contratava guia, alugava barco, comprava equipamento e gasolina frequentava restaurante e pagava por serviços locais extras. O gasto per capita do turista de pesca é incomparavelmente superior ao do caminhoneiro de passagem. E, ao contrário do turismo, a mineração não tem sazonalidade invertida: quando a piracema termina e a pesca seria liberada, os caminhões continuam - e o pescador não encontra mais o Pantanal que conhecia.

Mineradora alega sustentabilidade em sua produção - mas comunidade local sofre com a atividade econômica na região. | Créditos: Website / Internet
O pó que adoece
Há um impacto que não aparece em nenhum balanço financeiro, mas que os moradores de Corumbá e das comunidades no entorno da mina conhecem pelo próprio corpo: o pó de minério de ferro - avermelhado, fino, persistente - deposita-se sobre telhados, quintais, hortas e pulmões. Relatos de moradores apontam aumento de problemas respiratórios, especialmente em crianças e idosos que vivem próximos às estradas de escoamento e às áreas portuárias. Médicos da rede pública local já associam o aumento de atendimentos por rinite, bronquite e infecções respiratórias à intensificação da atividade mineradora nos últimos três anos.

Criança moradora local brinca na lama com pó de minério de ferro - uma poeira constante na região. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário
A fauna local também sofre. Animais silvestres atropelados nas estradas de acesso à mina tornaram-se cena comum - capivaras, tamanduás, aves aquáticas que cruzam os mesmos caminhos que, há três anos, eram percorridos por muito menos veículos.
O Pantanal é o maior corredor ecológico úmido do planeta. A fragmentação de seus caminhos por corredores logísticos é um impacto que a ciência já documenta como severo e de difícil reversão. As estradas, por sua vez, se deterioram em velocidade que o poder público não consegue acompanhar, pois o peso dos caminhões carregados com minério destrói o asfalto da frágil e supermovimentada BR-262 - e os recursos para reconstrução dependem, em parte, exatamente dos royalties que estão caindo.

O fluxo de caminhões é intenso na estrada construída pelo Governo de Mato Grosso do Sul para os moradores de Porto Esperança. Milhares de caminhões trafegam ali, 24 horas por dia, sete dias da semana - sem interrupções. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário

A natureza também sofre: flagrante de um jacaré "preso" entre a movimentação incessante dos caminhões na estrada e isolado em água contaminada pela poeira de minério - à beira da estrada de Porto Esperança. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário
O licenciamento que preocupa
O projeto de expansão para 25 milhões de toneladas anuais foi protocolado junto às autoridades ambientais do Mato Grosso do Sul. Esse novo projeto prevê duas novas plantas industriais, um terminal rodoviário, um sistema automatizado de carregamento ferroviário e obras de dragagem no Rio Paraguai - dentro do Pantanal, Patrimônio Natural da Humanidade e área de proteção reconhecida internacionalmente.
A empresa argumenta que a expansão trará até 4.300 empregos temporários na fase de obras e 500 vagas permanentes. Ela afirma também que a nova infraestrutura, com uso de correias transportadoras, reduzirá o tráfego de caminhões e, consequentemente, a emissão de pó e os danos às estradas. São compromissos que, se cumpridos, poderiam representar um pequeno alívio real para as comunidades - mas são promessas feitas por uma empresa que, em seu próprio balanço auditado, registra prejuízo de mais de R$ 1 bilhão e dívidas que dobraram em um ano e não existem garantias legais que essas promessas seriam cumpridas, até o momento.
A CFEM, por definição legal, não é uma compensação pelos impactos ambientais da mineração. É uma contraprestação pela extração de um bem da União que se esgota. Sendo assim, quando a mineradora causa dano ambiental, ela deve responder por ele separadamente, por outros instrumentos - licenciamento, TAC, RIMA, ação civil pública. Na prática, porém, é o município - e a população ribeirinha - que arca com a pressão sobre a infraestrutura, os recursos hídricos, a saúde pública e o bioma, enquanto os repasses encolhem e os mecanismos de controle ambiental ainda correm atrás do ritmo da expansão.
O Pantanal não espera
A LHG Mining projeta se tornar uma das três maiores detentoras de jazidas de ferro de alta qualidade no mundo. O minério do Complexo Morro do Urucum, com teor superior a 65% de ferro, é de fato excepcional, sendo um dos mais ricos do mundo - e a demanda global por insumos para produção de aço com menor pegada de carbono torna essa reserva estrategicamente valiosa nas próximas décadas.
Mas o Pantanal também é excepcional. É o maior wetland tropical do planeta, habitat de centenas de espécies ameaçadas, regulador climático de uma região continental, fonte de água e de identidade para populações ribeirinhas que não têm porta-voz em nenhuma sala de reunião nos bastidores do poder em Brasília ou em um escritório de uma grande corporação na Faria Lima em São Paulo, onde concentram-se os principais acionistas do Brasil.
E que os documentos revelam é simples e perturbador: a mineração cresce em ritmo sem precedentes, uma empresa declara prejuízo bilionário, os royalties e impostos que deveriam compensar o município caem pela metade, o Estado pavimenta estradas com dinheiro público para que os caminhões da mineradora passem - e as famílias que viveram por gerações às margens do Paraguai estão sendo, silenciosamente, empurradas para fora do único mundo que conhecem.

Milhares de caminhões passam todos os dias, 24 horas pode dia, 07 dias por semana transportando minério na estrada de Porto Esperança. Empresa quer dobrar produção - logo o impacto que já é imenso, irá aumentar no Pantanal. | Créditos: Fábio Marchi / MS Diário
O que esperar do futuro
Enquanto a produção cresceu quase 500% desde 2022, os royalties repassados a Corumbá caíram pela metade. A estrada que o Estado construiu "para os moradores" virou corredor da mineradora. E os ribeirinhos que preservaram o bioma por gerações estão sendo pressionados a sair.
A expansão provavelmente vai continuar, pois existem muitos interesses econômicos e políticos envolvidos, uma força descomunal e organizada, com recursos financeiros que os pantaneiros - sozinhos - não conseguem lidar.
Uma coisa é certa: a sustentabilidade que as grandes corporações gostam de alardear em seus balancetes e demonstrativos para seus acionistas, não existe mais no Pantanal Sul-Matogrossense, explorado e vilipendiado dia após dia, até o momento - tudo sob o olhar gélido e impávido de quem deveria cuidar dele.
AUDIÊNCIA PÚBLICA SOBRE A EXPANSÃO DA LHG MINING NO PANTANAL:
📍 Presencial: Centro de Convenções do Pantanal — Rua Domingos Sahib, 570, Centro, Corumbá
📺 Online: YouTube do Imasul — youtube.com/watch?v=wC5BVRjv0dw
🕖 19h (horário de MS)








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